Comportamento

Se faz bem, que mal tem?

Se o natural é ilegal, fico pensando se essa tal liberdade realmente existe

Um dia me apresentaram a ela.

Curiosa que sou, não me fecho para novas amizades, principalmente quando sei que podem me trazer boas experiências. Sempre tive consciência dos meus atos. Mais do que isso: sempre pensei nas consequências deles. Diversão é bom, mas sempre acreditei que meu corpo é meu templo e, dele, quem cuida sou eu. Sempre me preocupei com o que como, com o que bebo, com quem ando — as energias também interferem na gente. Tudo interfere no que somos.

Um dia, percebi.

Eu preferia a calmaria que ela trazia.

Eu preferia estar com ela do que bebendo mais do que o saudável, sem saber direito o que aconteceu na noite passada.

Eu preferia rir sossegada, às vezes ficar com um pouco de sono, outras vezes ficar animada, outras relaxada, ou simplesmente sentada na sala conversando com os meus amigos, que também adoravam a companhia dela.

Tudo flui naturalmente.

Aliás, ela é natural.

E se o natural é ilegal, me pego pensando se essa tal liberdade realmente existe. 

Enquanto esvazio a minha mente, sinto mais o meu corpo. Consigo perceber meus movimentos, minhas percepções aumentam, minha mente já não pode mais ser controlada pelo stress acumulado durante o dia.

Medito com ela.

Quando a levei pela primeira vez para meditar comigo, percebi que meu pensamento flutuava: passava pela pilha de louça suja que deixei em casa, depois ia para o trabalho da faculdade que estava pendente, depois divagava sobre o meu namoro e, inesperadamente, tudo sumia como fumaça. 

Minha mente estava vazia e, agora, eu começava o processo mais importante da meditação: esvaziar-me de mim mesma.

Enquanto médicos receitam milhares de remédios diariamente para que as pessoas consigam silenciar a própria mente ensurdecida pelo caos do trânsito, dos telefones tocando e do chefe berrando, eu apenas me aproximo dela.

Com seu vestido de papel de arroz, ela me acalma sem que eu precise ler a bula. Não há contraindicação além de saber que, vira e mexe, eu posso esquecer minhas chaves ou meu celular por aí.

Não convivo com ela para fugir da realidade. Muito pelo contrário: ela me faz curtir a minha existência ainda mais intensamente. Me faz entender certos sentimentos, me faz redescobrir minha personalidade. Desacelera, como quem diz: “pra que pressa se a alegria está no percurso? abre a janela, sente os cheiros do mundo, olhe as paisagens aqui de fora e vive”. Ela me ajuda a lembrar das pequenas coisas que preciso pra viver, e isso é muito maior do que qualquer outra coisa que ela me faz esquecer.

Estar com ela é quebrar um tabu criado culturalmente para beneficiar um grupo de pessoas e prejudicar outras. Assim, não apenas eu, como muitos, buscamos uma cultura que modifique o jeito de olhar e ouvir, e não aquela tradicional que nos é imposta goela abaixo. A minha vida privada é o espaço que vai da religião aos meus hábitos pessoais — e ninguém tem absolutamente nada a ver com isso.Faço dela minha companhia porque é uma questão de postura política. Debater sobre ela, defendendo-a, não me envergonha. Assumo um lado, argumento e me orgulho de pensar fora da caixinha enquadradora e ignorante onde muitos insistem em viver.

No fim, volto para o começo: se faz bem, que mal tem?

Priscilla Fontes

jornalista em formação com alma de dançarina do caos.

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